quinta-feira, 11 de agosto de 2022
O Uno, o Mesmo e o Outro, ou "To be or not to be?"
Li hoje o Parmênides. Fiquei espantado! Me lembrei de uma situação ocorrida há 10 anos, quando eu conversava, numa festa, com meu amigo Bruno (por coincidência formado em filosofia) e fomos interrompidos por uma garota que disse estar intrigada filosoficamente com o ‘Dois’. Aquela questão colocou minha mente para rodar, mas como ela se dirigia a ele, e só olhava para ele, entendi ser uma cantada e que eu era, na ocasião, o ‘três’ e, portanto, estava sobrando. No entanto, na minha volta para casa, fiquei pensando no ‘dois’, e, não pude deixar de pensar no ‘um’, considerando que o dois só era possível devido a existência do um, e que, portanto, o um era tão ou ainda mais instigante. Trazendo meu estudo de cultura (de base fortemente fenomenológica e subjetivista, mas (graças!), nunca fechado a isso) e outros devaneios ao longo da vida, pensei o seguinte: se a natureza pudesse ser considerada na paradoxal condição de abstrairmos a inteligência, teria ou não teria o um? Seria a natureza, sem a interpretação inteligente do Homem, puro caos, e a ordem consistiria numa necessidade de estabilização, ou num tipo de distúrbio que nos permite observar unidades? É claro que essa pergunta só faz sentido no caso de se abstrair da existência de Deus e de um princípio inteligente na constituição da natureza de todas as coisas (que são, hehe). Ainda seguindo esta linha abstrativa: há no princípio inteligente (humano) uma propriedade objetificante (da qual os altistas têm grande dificuldade), que nos permite perceber coisas distintas na massa de estímulos luminosos e sonoros que nos chegam. Esse princípio objetificante constitui o primeiro passo para a consideração do 'Um'. No entanto, se tudo (cada objeto percebido) fosse percebido como apenas 'um’ em si mesmo, nunca seríamos capazes de nomear as coisas, porque infinitas e unas em si mesmas. É preciso a identificação do ‘mesmo’ (segundo princípio objetificante) para que o trabalho de dar nome às coisas possa ocorrer, sem ser insano. Me parece o mesmo trabalho operado pelas Ideias/Formas platônicas. Portanto, é necessário à inteligência perceber, no mínimo o ‘Dois’ de algo, para que esse algo possa ser observado como partícipe de uma unidade e, sendo (re)conhecido, nomeado. Daí, compreendi, naquela ocasião que o Um, necessitava do Dois e, portanto, da multiplicidade do mesmo em face do diferente. Muito, embora, por outro lado, esse princípio da unidade constituiria sempre uma abstração (Ideia), uma vez que se temos dois cachorros, o Tobe e o Nottobe, o Nottobe não é o Tobe, e portanto, cada um é um em si mesmo. No entanto, considerados abstratamente e em face do gato Notdog, ambos são reconhecido no mesmo gênero canino (no sentido lógico, não no sentido da taxonomia biológica consolidada).
Depois de lido o diálogo Parmênides, vejo a enorme passo filosófico dado pela consideração das Ideias/Forma. Não consigo imaginar como seria nossa compreensão de cultura sem essa base. Mas por outro lado, não deixo de considerar muito confusa essa compreensão platônica de que as Ideias/Forma são propriedades que as coisas têm, ou da qual participam. Embora, eu compartilhe da compreensão de que Deus é o criador da natureza, tendo mais à concepção de que esse trabalho de nomear/adjetivar as coisas é um fator próprio da inteligência humana e, portanto, embora percebamos as características pelas quais designamos as coisas como algo que já estava nelas antes de as percebermos, as ideias em si, são atributos da nossa inteligência. E daí, por mais perenes que sejam algumas ideias entre outras, assim como um rio ao longo de muitos anos muda o seu percurso, também as ideias mais sólidas sofrem transformações.
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